Diário da Fiori
Produção·01 de outubro de 2026

Ficha técnica de roupa para confecção: o que precisa ter para orçar e produzir

Por Daniel Vieira, Comercial da Fiori Private Confecções

O que uma ficha técnica precisa ter, campo a campo: pontos de medição por tipo de peça, tolerância, o que dizer sobre o tecido, o que mais atrasa um lote e o que ainda dá para mudar depois do corte. Com modelo para imprimir.

Moldes de papelão, desenho técnico, régua e tesoura sobre a mesa de uma confecção

A ficha técnica de roupa é o documento que diz à confecção exatamente o que produzir: tecido, aviamentos, medidas por tamanho com os pontos de medição, grade, detalhes de costura e acabamento. Com ela completa, a confecção orça com precisão e produz sem precisar adivinhar. Sem ela, ou com ela pela metade, cada dúvida vira uma pergunta, um atraso ou uma peça diferente da que a marca imaginou. Este guia mostra o que a ficha precisa ter, campo a campo, onde as fichas costumam falhar e o que ainda dá para corrigir depois que o tecido foi cortado.

O que é a ficha técnica de uma roupa?

A ficha técnica é a descrição completa de um modelo, feita para quem vai produzir, não para quem vai vender. É diferente do desenho de criação e da foto de campanha: ela precisa ter tudo o que a confecção usa para cortar, costurar, acabar e conferir a peça.

Na prática, é um documento de uma ou duas páginas por modelo, com desenho técnico, tabela de medidas e lista de materiais. Pode ser um PDF, uma planilha ou uma ficha exportada de um sistema. O formato importa menos do que o conteúdo. O que importa é que uma pessoa que nunca viu a peça consiga produzi-la igual só com o que está escrito.

O que a ficha técnica precisa ter?

A ficha precisa ter dez blocos. Faltando um, a confecção vai perguntar, supor ou errar.

BlocoO que entraO que acontece quando falta
IdentificaçãoReferência do modelo, nome, coleção, número e data da versãoA confecção produz pela versão antiga da ficha
Desenho técnicoFrente e costas em linha, com bolsos, pences, recortes, pespontos e aberturas marcadosA foto não mostra o lado de dentro nem a largura do pesponto; cada costureira interpreta de um jeito
TecidoComposição, gramatura, largura útil, cor, referência do fornecedor, sentido do fio, se tem elastano e quantoConsumo errado no encaixe, agulha e linha erradas, peça que encolhe ou torce depois de passar
AviamentosBotão (tamanho em linha ou mm, furos, cor), zíper (tipo, tamanho, cor), entretela (tipo e onde vai), elástico, linha (cor e título), etiquetas: quantidade por peçaBotão que não passa no caseado; zíper mais curto que a abertura; linha de tom diferente no pesponto
Tabela de medidasMedidas por tamanho, com os pontos de medição desenhados e a tolerância aceita em cada pontoA confecção mede num ponto, a marca confere em outro, e a peça parece errada sem estar
GradeQuais tamanhos e quantas peças de cada, por corDefine o corte; sem ela não há como encaixar nem calcular consumo
Costura e acabamentoTipo de costura em cada parte (fechamento, barra, cava), largura do pesponto, altura da barra, posição e quantidade de caseados e botõesÉ a diferença entre uma peça premium e uma peça comum, e é o que mais varia entre confecções
EtiquetasEtiqueta de marca, de composição e de tamanho: onde vão e como são costuradas (presa na costura, sobreposta, dobrada)Etiqueta no lugar errado é a peça inteira no retrabalho
EmbalagemComo dobrar, se vai em cabide ou saco, se leva tag, como agrupar por tamanho e corA peça chega à loja de um jeito que a marca não queria
ObservaçõesO que não pode acontecer: listra que precisa casar, estampa com sentido, cor que não pode variar entre partes, peça que não pode ser passada em alta temperaturaSão os erros mais caros, porque só aparecem na peça pronta

Se a sua marca tem só parte disso, dá para pedir um pré-orçamento. Não dá para fechar o lote. O ideal é chegar na produção com os dez blocos preenchidos.

Quais são os pontos de medição que a confecção precisa?

A tabela de medidas só funciona quando diz onde medir, como medir e quanto pode variar. "Busto 92" sozinho não serve: a confecção pode medir 1 cm abaixo da cava com a peça relaxada e a marca pode medir na linha da cava com a peça esticada, e os dois vão achar números diferentes na mesma peça. Os pontos variam por tipo de peça, mas estes são os que resolvem a maior parte das dúvidas:

Tipo de peçaPontos de medição que a ficha precisa terOnde a marca e a confecção mais divergem
Camisa e blusaColarinho (de botão a caseado), ombro a ombro, tórax (1 cm abaixo da cava), cintura, comprimento (do decote das costas até a barra), comprimento de manga (do ombro ou do meio das costas), punho, abertura de barraManga: do ombro ou do meio das costas? Comprimento: pela frente ou pelas costas?
Calça e shortCintura (relaxada e esticada, quando tem elástico), quadril, gancho da frente, gancho das costas, coxa, joelho, boca, comprimento lateral, entrepernasCintura medida relaxada ou esticada; comprimento com ou sem a altura do cós
Vestido e saiaBusto, cintura, quadril, comprimento, cava, decote (largura e profundidade), abertura de barra, altura da fendaComprimento com ou sem a alça; quadril a quantos centímetros da cintura
Camiseta, polo e moletom (malha)Ombro a ombro, tórax, comprimento, manga, abertura de manga, ribana (altura e largura), capuz e bolso no moletomMalha estica: medida com a peça relaxada sobre a mesa, nunca esticada

Dois cuidados que evitam quase toda discussão: um desenho pequeno ao lado da tabela mostrando onde cada ponto é medido, e a regra de que toda medida é tirada com a peça relaxada sobre a mesa, sem puxar.

Qual tolerância colocar na tabela de medidas?

A tolerância é a variação que a marca aceita em cada ponto, e precisa estar escrita na ficha. Sem ela, qualquer diferença vira discussão. Fichas técnicas bem feitas costumam usar faixas pequenas nos pontos curtos e rígidos, como colarinho e punho, e faixas um pouco maiores nos pontos longos ou de tecido que cede, como tórax, quadril e comprimento. Em malha, a faixa costuma ser maior do que em tecido plano, porque a peça se move.

Quem define a tolerância é a marca, de acordo com o padrão que ela vende. O que não pode é ela ficar na cabeça de alguém: a confecção revisa contra o número que está na ficha. Se a marca não tem tolerância definida, vale conversar com a confecção antes do primeiro lote e fechar os números juntos.

O que a ficha precisa dizer sobre o tecido?

A ficha precisa dizer composição, gramatura, largura útil, referência do fornecedor, se tem elastano e quanto, e o sentido do fio. Cada uma dessas informações muda uma decisão na fábrica:

  • Largura útil define o encaixe e o consumo. Um tecido de 1,40 m e um de 1,50 m dão rendimentos diferentes para a mesma modelagem.
  • Gramatura e composição definem agulha, linha, ponto e temperatura de passadoria. Viscose, linho e algodão de mesma cor se comportam de jeitos diferentes.
  • Elastano muda o encaixe, a costura e a tolerância da medida.
  • Sentido do fio e estampa com direção definem se as partes podem ser encaixadas em qualquer posição ou só numa. Isso muda o consumo e o preço.
  • Listra e xadrez precisam dizer se casam na costura. Casar listra custa tecido e tempo, e precisa estar combinado antes.

"Viscose" sozinho pode ser dezenas de tecidos. A referência do fornecedor resolve a dúvida de uma vez.

O que mais atrasa um orçamento ou um lote?

O que mais atrasa é a informação que falta e precisa ser perguntada no meio do processo. Os casos mais comuns, e o que eles custam:

  • Tabela de medidas sem pontos de medição. A peça sai certa pela ficha e "errada" pela conferência da marca. Resultado: discussão, remedição e, às vezes, retrabalho sem necessidade.
  • Tecido descrito só pelo nome comercial. O consumo calculado não bate com o tecido que chegou, e a sobra de segurança some. Resultado: falta tecido para fechar a grade.
  • Aviamento sem referência. O botão de 4 furos e 15 mm chega quando a modelagem previa caseado para 11 mm. Resultado: botão parado, lote parado, compra nova.
  • Mudança depois do corte. A marca pede para tirar a pence ou mudar a largura. Resultado: peça cortada vira perda, e a mudança nem sempre é possível.
  • Ficha sem versão ou data. A correção foi combinada por mensagem, a ficha no galpão é a antiga. Resultado: lote produzido pela versão errada, com a marca certa de que avisou.

Cada um desses itens é uma pergunta a mais, e cada pergunta é tempo parado. Quase todos se resolvem com cinco minutos a mais na ficha antes de enviar.

Quer saber se o seu modelo se encaixa? Envie até 3 fotos de um modelo (frente, costas e um detalhe) e receba um pré-orçamento sem compromisso.

Enviar fotos

O que ainda dá para mudar depois do corte?

Depois do corte, dá para mudar o que reduz a peça ou o que ainda não foi costurado; não dá para mudar o que precisa de tecido a mais. Essa é a regra prática:

Ainda dá, com custoNão dá mais
Encurtar comprimento de corpo, manga ou barraAlongar qualquer medida
Mudar a posição de bolso, etiqueta ou caseado, se ainda não foram costuradosAlargar tórax, quadril, cava ou gola
Trocar aviamento por outro da mesma medidaTrocar botão por outro de tamanho diferente, se o caseado já foi aberto
Mudar largura de pesponto ou tipo de acabamento internoMudar o sentido do fio ou o casamento de estampa
Ajustar altura de barra dentro da sobra previstaIncluir recorte, pence ou forro que não estava na modelagem

Toda mudança depois do corte é retrabalho e entra no custo. Por isso a aprovação do arquivo de modelagem e da peça-piloto existe: é a última hora em que mudar é barato.

Ficha técnica e modelagem são a mesma coisa?

Não. A ficha técnica descreve a peça; a modelagem é o molde que corta o tecido. As duas precisam combinar: a tabela de medidas da ficha tem de ser a mesma da modelagem, e a grade da ficha tem de ser a mesma que a modelagem foi ampliada.

Moldes de papel sobre tecido plano na mesa de corte de uma confecção
A modelagem é o molde que corta o tecido; a ficha técnica diz como a peça deve sair.

A confecção precisa das duas. Quando a marca tem a modelagem base e a peça-piloto, a confecção faz a industrialização: digitaliza, confere e amplia para a grade. É nessa conferência que ficha e modelagem são colocadas lado a lado. Quando não batem, é a ficha que costuma estar desatualizada: alguém ajustou o molde e não voltou na tabela.

A ficha técnica muda entre facção e private label?

Muda pouco no conteúdo e muito na responsabilidade. Na facção, a marca envia tecido e aviamentos, então a ficha precisa dizer exatamente o que foi enviado e em que quantidade. No private label, a confecção compra tecido e aviamentos conforme a especificação da marca, então a ficha vira a ordem de compra: referência de fornecedor, cor, quantidade por peça. Nos dois formatos, a tabela de medidas, o desenho técnico e o acabamento são os mesmos. A comparação completa está em Facção ou private label: qual faz sentido para a sua marca.

Onde encontrar um modelo de ficha técnica para preencher?

Deixamos um modelo em branco, com os dez blocos e os pontos de medição por tipo de peça, pronto para imprimir ou salvar em PDF: Modelo de ficha técnica de roupa para confecção. Ele serve para qualquer confecção, não só para a Fiori. Preencha um por modelo e envie junto com a modelagem.

Na prática, na Fiori

Na Fiori Private Confecções, o pré-orçamento começa com até 3 fotos de um modelo: frente, costas e um detalhe. Com as fotos, dá para dizer se a peça está dentro do que produzimos e dar uma primeira leitura de complexidade. O orçamento final depende da ficha técnica, do tecido e da quantidade, porque é isso que forma o preço (explicamos em O que forma o preço por peça na terceirização).

Antes do corte, a marca aprova o arquivo da modelagem industrializada. É nesse momento que a ficha e a modelagem são conferidas uma contra a outra, e um erro de grade é pego antes de virar lote. No nosso romaneio de corte, a grade é registrada por cor e tamanho, junto com o rendimento do tecido e as datas de envio e entrega combinadas, para que a marca e a fábrica estejam olhando para o mesmo papel.

Durante a produção, a ficha e a peça-piloto são a referência da revisão peça a peça, em cada etapa: costura, acabamento e embalagem. Se a ficha chega incompleta, dizemos o que falta antes de começar. Preferimos uma pergunta a mais no início a uma peça errada no final.

Perguntas frequentes

Preciso ter ficha técnica para pedir um pré-orçamento?

Não. Para o pré-orçamento, bastam até 3 fotos do modelo: frente, costas e um detalhe. A ficha técnica entra depois, para o orçamento final e a produção.

Vocês fazem a ficha técnica para a minha marca?

Não desenvolvemos a ficha nem a coleção. Industrializamos o que a marca já definiu. Se a ficha estiver incompleta, apontamos o que falta antes de produzir, e o modelo em branco deste artigo ajuda a preencher.

Existe um formato de ficha técnica que vocês exigem?

Não. PDF, planilha ou ficha exportada de sistema servem, desde que tenham os dez blocos: identificação, desenho técnico, tecido, aviamentos, tabela de medidas com pontos e tolerância, grade, acabamento, etiquetas, embalagem e observações.

A ficha técnica substitui a peça-piloto?

Não. A ficha descreve; a peça-piloto mostra. A revisão confere cada peça do lote contra as duas.

E se eu mudar algo na ficha depois de aprovar?

Antes do corte, a mudança entra na modelagem e na ficha, com nova versão numerada. Depois do corte, só o que reduz a peça ou ainda não foi costurado pode mudar, e vira retrabalho.

Mínimo de 60 peças por modelo, somando a grade, em até 2 cores. Atendemos apenas empresas com CNPJ ativo. Enviamos para todo o Brasil.

Daniel Vieira cuida do comercial da Fiori Private Confecções, confecção em São Paulo que produz para marcas de moda.

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Envie até 3 fotos de um modelo — frente, costas e um detalhe — e receba um pré-orçamento sem compromisso. O primeiro trabalho pode ser um modelo-piloto.

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