Ficha técnica de roupa para confecção: o que precisa ter para orçar e produzir
Por Daniel Vieira, Comercial da Fiori Private Confecções
O que uma ficha técnica precisa ter, campo a campo: pontos de medição por tipo de peça, tolerância, o que dizer sobre o tecido, o que mais atrasa um lote e o que ainda dá para mudar depois do corte. Com modelo para imprimir.

A ficha técnica de roupa é o documento que diz à confecção exatamente o que produzir: tecido, aviamentos, medidas por tamanho com os pontos de medição, grade, detalhes de costura e acabamento. Com ela completa, a confecção orça com precisão e produz sem precisar adivinhar. Sem ela, ou com ela pela metade, cada dúvida vira uma pergunta, um atraso ou uma peça diferente da que a marca imaginou. Este guia mostra o que a ficha precisa ter, campo a campo, onde as fichas costumam falhar e o que ainda dá para corrigir depois que o tecido foi cortado.
O que é a ficha técnica de uma roupa?
A ficha técnica é a descrição completa de um modelo, feita para quem vai produzir, não para quem vai vender. É diferente do desenho de criação e da foto de campanha: ela precisa ter tudo o que a confecção usa para cortar, costurar, acabar e conferir a peça.
Na prática, é um documento de uma ou duas páginas por modelo, com desenho técnico, tabela de medidas e lista de materiais. Pode ser um PDF, uma planilha ou uma ficha exportada de um sistema. O formato importa menos do que o conteúdo. O que importa é que uma pessoa que nunca viu a peça consiga produzi-la igual só com o que está escrito.
O que a ficha técnica precisa ter?
A ficha precisa ter dez blocos. Faltando um, a confecção vai perguntar, supor ou errar.
| Bloco | O que entra | O que acontece quando falta |
|---|---|---|
| Identificação | Referência do modelo, nome, coleção, número e data da versão | A confecção produz pela versão antiga da ficha |
| Desenho técnico | Frente e costas em linha, com bolsos, pences, recortes, pespontos e aberturas marcados | A foto não mostra o lado de dentro nem a largura do pesponto; cada costureira interpreta de um jeito |
| Tecido | Composição, gramatura, largura útil, cor, referência do fornecedor, sentido do fio, se tem elastano e quanto | Consumo errado no encaixe, agulha e linha erradas, peça que encolhe ou torce depois de passar |
| Aviamentos | Botão (tamanho em linha ou mm, furos, cor), zíper (tipo, tamanho, cor), entretela (tipo e onde vai), elástico, linha (cor e título), etiquetas: quantidade por peça | Botão que não passa no caseado; zíper mais curto que a abertura; linha de tom diferente no pesponto |
| Tabela de medidas | Medidas por tamanho, com os pontos de medição desenhados e a tolerância aceita em cada ponto | A confecção mede num ponto, a marca confere em outro, e a peça parece errada sem estar |
| Grade | Quais tamanhos e quantas peças de cada, por cor | Define o corte; sem ela não há como encaixar nem calcular consumo |
| Costura e acabamento | Tipo de costura em cada parte (fechamento, barra, cava), largura do pesponto, altura da barra, posição e quantidade de caseados e botões | É a diferença entre uma peça premium e uma peça comum, e é o que mais varia entre confecções |
| Etiquetas | Etiqueta de marca, de composição e de tamanho: onde vão e como são costuradas (presa na costura, sobreposta, dobrada) | Etiqueta no lugar errado é a peça inteira no retrabalho |
| Embalagem | Como dobrar, se vai em cabide ou saco, se leva tag, como agrupar por tamanho e cor | A peça chega à loja de um jeito que a marca não queria |
| Observações | O que não pode acontecer: listra que precisa casar, estampa com sentido, cor que não pode variar entre partes, peça que não pode ser passada em alta temperatura | São os erros mais caros, porque só aparecem na peça pronta |
Se a sua marca tem só parte disso, dá para pedir um pré-orçamento. Não dá para fechar o lote. O ideal é chegar na produção com os dez blocos preenchidos.
Quais são os pontos de medição que a confecção precisa?
A tabela de medidas só funciona quando diz onde medir, como medir e quanto pode variar. "Busto 92" sozinho não serve: a confecção pode medir 1 cm abaixo da cava com a peça relaxada e a marca pode medir na linha da cava com a peça esticada, e os dois vão achar números diferentes na mesma peça. Os pontos variam por tipo de peça, mas estes são os que resolvem a maior parte das dúvidas:
| Tipo de peça | Pontos de medição que a ficha precisa ter | Onde a marca e a confecção mais divergem |
|---|---|---|
| Camisa e blusa | Colarinho (de botão a caseado), ombro a ombro, tórax (1 cm abaixo da cava), cintura, comprimento (do decote das costas até a barra), comprimento de manga (do ombro ou do meio das costas), punho, abertura de barra | Manga: do ombro ou do meio das costas? Comprimento: pela frente ou pelas costas? |
| Calça e short | Cintura (relaxada e esticada, quando tem elástico), quadril, gancho da frente, gancho das costas, coxa, joelho, boca, comprimento lateral, entrepernas | Cintura medida relaxada ou esticada; comprimento com ou sem a altura do cós |
| Vestido e saia | Busto, cintura, quadril, comprimento, cava, decote (largura e profundidade), abertura de barra, altura da fenda | Comprimento com ou sem a alça; quadril a quantos centímetros da cintura |
| Camiseta, polo e moletom (malha) | Ombro a ombro, tórax, comprimento, manga, abertura de manga, ribana (altura e largura), capuz e bolso no moletom | Malha estica: medida com a peça relaxada sobre a mesa, nunca esticada |
Dois cuidados que evitam quase toda discussão: um desenho pequeno ao lado da tabela mostrando onde cada ponto é medido, e a regra de que toda medida é tirada com a peça relaxada sobre a mesa, sem puxar.
Qual tolerância colocar na tabela de medidas?
A tolerância é a variação que a marca aceita em cada ponto, e precisa estar escrita na ficha. Sem ela, qualquer diferença vira discussão. Fichas técnicas bem feitas costumam usar faixas pequenas nos pontos curtos e rígidos, como colarinho e punho, e faixas um pouco maiores nos pontos longos ou de tecido que cede, como tórax, quadril e comprimento. Em malha, a faixa costuma ser maior do que em tecido plano, porque a peça se move.
Quem define a tolerância é a marca, de acordo com o padrão que ela vende. O que não pode é ela ficar na cabeça de alguém: a confecção revisa contra o número que está na ficha. Se a marca não tem tolerância definida, vale conversar com a confecção antes do primeiro lote e fechar os números juntos.
O que a ficha precisa dizer sobre o tecido?
A ficha precisa dizer composição, gramatura, largura útil, referência do fornecedor, se tem elastano e quanto, e o sentido do fio. Cada uma dessas informações muda uma decisão na fábrica:
- Largura útil define o encaixe e o consumo. Um tecido de 1,40 m e um de 1,50 m dão rendimentos diferentes para a mesma modelagem.
- Gramatura e composição definem agulha, linha, ponto e temperatura de passadoria. Viscose, linho e algodão de mesma cor se comportam de jeitos diferentes.
- Elastano muda o encaixe, a costura e a tolerância da medida.
- Sentido do fio e estampa com direção definem se as partes podem ser encaixadas em qualquer posição ou só numa. Isso muda o consumo e o preço.
- Listra e xadrez precisam dizer se casam na costura. Casar listra custa tecido e tempo, e precisa estar combinado antes.
"Viscose" sozinho pode ser dezenas de tecidos. A referência do fornecedor resolve a dúvida de uma vez.
O que mais atrasa um orçamento ou um lote?
O que mais atrasa é a informação que falta e precisa ser perguntada no meio do processo. Os casos mais comuns, e o que eles custam:
- Tabela de medidas sem pontos de medição. A peça sai certa pela ficha e "errada" pela conferência da marca. Resultado: discussão, remedição e, às vezes, retrabalho sem necessidade.
- Tecido descrito só pelo nome comercial. O consumo calculado não bate com o tecido que chegou, e a sobra de segurança some. Resultado: falta tecido para fechar a grade.
- Aviamento sem referência. O botão de 4 furos e 15 mm chega quando a modelagem previa caseado para 11 mm. Resultado: botão parado, lote parado, compra nova.
- Mudança depois do corte. A marca pede para tirar a pence ou mudar a largura. Resultado: peça cortada vira perda, e a mudança nem sempre é possível.
- Ficha sem versão ou data. A correção foi combinada por mensagem, a ficha no galpão é a antiga. Resultado: lote produzido pela versão errada, com a marca certa de que avisou.
Cada um desses itens é uma pergunta a mais, e cada pergunta é tempo parado. Quase todos se resolvem com cinco minutos a mais na ficha antes de enviar.
Quer saber se o seu modelo se encaixa? Envie até 3 fotos de um modelo (frente, costas e um detalhe) e receba um pré-orçamento sem compromisso.
Enviar fotosO que ainda dá para mudar depois do corte?
Depois do corte, dá para mudar o que reduz a peça ou o que ainda não foi costurado; não dá para mudar o que precisa de tecido a mais. Essa é a regra prática:
| Ainda dá, com custo | Não dá mais |
|---|---|
| Encurtar comprimento de corpo, manga ou barra | Alongar qualquer medida |
| Mudar a posição de bolso, etiqueta ou caseado, se ainda não foram costurados | Alargar tórax, quadril, cava ou gola |
| Trocar aviamento por outro da mesma medida | Trocar botão por outro de tamanho diferente, se o caseado já foi aberto |
| Mudar largura de pesponto ou tipo de acabamento interno | Mudar o sentido do fio ou o casamento de estampa |
| Ajustar altura de barra dentro da sobra prevista | Incluir recorte, pence ou forro que não estava na modelagem |
Toda mudança depois do corte é retrabalho e entra no custo. Por isso a aprovação do arquivo de modelagem e da peça-piloto existe: é a última hora em que mudar é barato.
Ficha técnica e modelagem são a mesma coisa?
Não. A ficha técnica descreve a peça; a modelagem é o molde que corta o tecido. As duas precisam combinar: a tabela de medidas da ficha tem de ser a mesma da modelagem, e a grade da ficha tem de ser a mesma que a modelagem foi ampliada.
A confecção precisa das duas. Quando a marca tem a modelagem base e a peça-piloto, a confecção faz a industrialização: digitaliza, confere e amplia para a grade. É nessa conferência que ficha e modelagem são colocadas lado a lado. Quando não batem, é a ficha que costuma estar desatualizada: alguém ajustou o molde e não voltou na tabela.
A ficha técnica muda entre facção e private label?
Muda pouco no conteúdo e muito na responsabilidade. Na facção, a marca envia tecido e aviamentos, então a ficha precisa dizer exatamente o que foi enviado e em que quantidade. No private label, a confecção compra tecido e aviamentos conforme a especificação da marca, então a ficha vira a ordem de compra: referência de fornecedor, cor, quantidade por peça. Nos dois formatos, a tabela de medidas, o desenho técnico e o acabamento são os mesmos. A comparação completa está em Facção ou private label: qual faz sentido para a sua marca.
Onde encontrar um modelo de ficha técnica para preencher?
Deixamos um modelo em branco, com os dez blocos e os pontos de medição por tipo de peça, pronto para imprimir ou salvar em PDF: Modelo de ficha técnica de roupa para confecção. Ele serve para qualquer confecção, não só para a Fiori. Preencha um por modelo e envie junto com a modelagem.
Na prática, na Fiori
Na Fiori Private Confecções, o pré-orçamento começa com até 3 fotos de um modelo: frente, costas e um detalhe. Com as fotos, dá para dizer se a peça está dentro do que produzimos e dar uma primeira leitura de complexidade. O orçamento final depende da ficha técnica, do tecido e da quantidade, porque é isso que forma o preço (explicamos em O que forma o preço por peça na terceirização).
Antes do corte, a marca aprova o arquivo da modelagem industrializada. É nesse momento que a ficha e a modelagem são conferidas uma contra a outra, e um erro de grade é pego antes de virar lote. No nosso romaneio de corte, a grade é registrada por cor e tamanho, junto com o rendimento do tecido e as datas de envio e entrega combinadas, para que a marca e a fábrica estejam olhando para o mesmo papel.
Durante a produção, a ficha e a peça-piloto são a referência da revisão peça a peça, em cada etapa: costura, acabamento e embalagem. Se a ficha chega incompleta, dizemos o que falta antes de começar. Preferimos uma pergunta a mais no início a uma peça errada no final.
Perguntas frequentes
Preciso ter ficha técnica para pedir um pré-orçamento?
Não. Para o pré-orçamento, bastam até 3 fotos do modelo: frente, costas e um detalhe. A ficha técnica entra depois, para o orçamento final e a produção.
Vocês fazem a ficha técnica para a minha marca?
Não desenvolvemos a ficha nem a coleção. Industrializamos o que a marca já definiu. Se a ficha estiver incompleta, apontamos o que falta antes de produzir, e o modelo em branco deste artigo ajuda a preencher.
Existe um formato de ficha técnica que vocês exigem?
Não. PDF, planilha ou ficha exportada de sistema servem, desde que tenham os dez blocos: identificação, desenho técnico, tecido, aviamentos, tabela de medidas com pontos e tolerância, grade, acabamento, etiquetas, embalagem e observações.
A ficha técnica substitui a peça-piloto?
Não. A ficha descreve; a peça-piloto mostra. A revisão confere cada peça do lote contra as duas.
E se eu mudar algo na ficha depois de aprovar?
Antes do corte, a mudança entra na modelagem e na ficha, com nova versão numerada. Depois do corte, só o que reduz a peça ou ainda não foi costurado pode mudar, e vira retrabalho.
Mínimo de 60 peças por modelo, somando a grade, em até 2 cores. Atendemos apenas empresas com CNPJ ativo. Enviamos para todo o Brasil.
Daniel Vieira cuida do comercial da Fiori Private Confecções, confecção em São Paulo que produz para marcas de moda.
Peça um pré-orçamento
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fioriprivate.com.br · Daniel Vieira, Comercial